Quando a Serra Negra terá sua carta de alforria?

Mikhail Gorbachiov é Cientista Social pela UFPE

A escravidão é uma prática social onde um ser humano assume direitos de propriedade sobre outro, denominado escravo, por meio da utilização da força.

A história da escravidão no Brasil acomete principalmente a população negra africana, que era comercializada e tratada de forma desumana por ingleses, portugueses e espanhóis. Estes proibiam os escravos de praticar suas religiões ou realizar suas festas, e também impunham sua cultura a população negra, que às escondidas, bravamente, resistia.

No século do Ouro (XVII), alguns escravos tinham condições de comprar sua carta de alforria e a tão sonhada liberdade, mas não bastava ser livre se a sociedade tinha preconceito para com estes. E apesar de muitos avanços, hoje, podemos perceber o quão latente ainda é nosso preconceito para com os negros e negras.

Você deve estar se perguntando: o que isso tudo tem a ver com a serra negra?

Pois bem… Há quase duas décadas, o prefeito Lucas Cardoso vislumbrou tornar a Serra Negra uma área de potencial turismo e que com isso trouxesse oportunidades para a promoção de emprego e renda. Talvez Lucas não intentasse ver a Serra como está hoje, mas isso não temos como mensurar. Fato é que passaram gestores e gestores e a Serra Negra, e sobretudo os seus, não foram olhados como se devia.

O destino ou as más gestões tornaram o ambiente fecundo a um processo de escravização da Serra que coincidentemente tem o nome de “Negra”. Notem aqui que a Serra Negra, assim como o Brasil em sua gênese sofreu uma “invasão”, não de ibéricos, mas de veranistas que logo em seguida construíram seus refúgios da metrópole no ambiente que já fora árcade, assim agredindo a paisagem natural e provocando um êxodo rural.

Estes invasores, semelhantemente aos ibéricos e ingleses, citados no início do texto, se encarregaram de aculturar os poucos nativos da Serra Negra. Assim, o costume de dormir cedo da noite fora trocado por noites festivas, regadas a sons altos, e afins. Notem que o processo se instalou sem sequer levar em conta o que os nativos achavam daquilo. Obviamente que com o passar do tempo a estratégia é a de que o impacto se naturalize e aí se justifica o que se fez em outrora.

Hoje, a Serra Negra é escravizada por invasores e por meio da utilização da força (leia-se capital econômico) e sob as vistas grossas de gestões municipais que passam e nada fazem para no mínimo regulamentar o que pode e o que não pode naquele ambiente.

A negra Serra está a mercê das correntes que os especuladores imobiliários lançaram sobre ela; refém de veranistas que por terem um determinado poder econômico acreditam que podem ciscar aonde lhes der na telha.

A Serra é Negra, e talvez a carta de alforria não esteja tão próxima. Mas o que deveras amedronta é que quando esta carta sair, a serra já não tenha mais o pouco do brilho que ainda resta. Pois infelizmente só valorizamos algumas coisas quando a perdemos.

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